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Ditinho Joana
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Ditinho Joana

Há histórias que se escrevem no papel. Seu Ditinho escolheu a madeira.

Anna · 03 de novembro de 2026 · 5 minutos de leitura

Antes de ganhar forma na madeira, a história de Ditinho Joana começou na roça, no bairro do Quilombo.

Benedito da Silva Santos nasceu em 12 de março de 1945, no bairro do Quilombo, em São Bento do Sapucaí. Antes de ser conhecido como Ditinho Joana, escultor, trabalhou durante anos como lavrador. Dos 12 aos 29 anos, sua rotina esteve ligada ao trabalho na roça e foi justamente ali que começou uma história que mudaria sua vida.

A raiz de tudo

Era 1974 quando Ditinho encontrou uma raiz enquanto trabalhava. Ao olhar para ela, enxergou diferentes formas: poderia ser um gato, uma girafa, um cachorro, um cavalo. Levou a raiz para casa e mostrou à mãe, Maria Joana.

Diante daquela madeira que poderia ser tantas coisas, surgiu uma ideia: em vez de tentar descobrir o que a natureza havia desenhado, ele poderia pegar outro pedaço de madeira e dar a ele a forma que quisesse.

Foi assim que começou a esculpir.

Sua primeira obra traz duas figuras, um padre e um indígena. Foi feita à luz de lamparina, com a ajuda da mãe para iluminar o trabalho. A peça atravessou as décadas e permanece guardada no ateliê da família, no Quilombo.

Da enxada para a madeira

A escultura não substituiu imediatamente o trabalho no campo. Durante cerca de dez anos, Ditinho conciliou as duas atividades. À medida que as pessoas começaram a procurar sua casa para conhecer as peças, a madeira foi ocupando cada vez mais espaço, até que ele deixou a roça e passou a viver de suas esculturas.

As pessoas que conhecia, os costumes, os trabalhadores, as cenas do cotidiano e suas próprias lembranças passaram a aparecer na madeira.

Homens, mulheres, crianças, lavradores e animais dividem espaço com santos, profissões, objetos e outras figuras. Mais do que reproduzir a vida rural, Ditinho encontrou na escultura uma maneira de registrar histórias que poderiam desaparecer com o tempo.

Em 1979, suas obras chegaram a São Paulo em sua primeira exposição. No mesmo ano, seu trabalho foi avaliado por Pietro Maria Bardi, então diretor do MASP, e Ditinho também ganhou espaço em um programa cultural da TV Record.

A botinha

Entre tantas figuras que saíram de suas mãos, uma pequena botina de madeira acabou se tornando sua marca.

A inspiração veio da botina usada pelo homem do campo, mas Seu Ditinho deu a ela um significado que vai muito além do objeto. Para ele, a botinha representa a caminhada da vida: os momentos em que subimos e descemos, seguimos depressa ou devagar, cansamos, descansamos, nos entristecemos e nos alegramos.

As marcas deixadas na botinha são, assim, as marcas deixadas pelo caminho.

Uma história que continua

Hoje, o Ateliê Ditinho Joana continua no bairro onde essa história começou. E a madeira também se tornou uma história de família.

Seus filhos Alexandre, Adriângela e Saulo seguiram o ofício e trabalham com o pai, dando continuidade a uma linguagem construída ao longo de mais de cinco décadas.

Talvez seja justamente isso que torne a história de Seu Ditinho tão especial. Sua obra nasceu daquilo que ele conheceu, viveu e observou ao seu redor, mas foi muito além das fronteiras do Quilombo e de São Bento do Sapucaí.

Conhecer Seu Ditinho é também conhecer um homem que fala de sua origem com orgulho, que valoriza o lugar de onde veio e que encontrou na madeira uma maneira de contar histórias. Há uma simplicidade encantadora na forma como recebe, conversa e compartilha sua trajetória que ajuda a entender por que sua obra desperta tanto respeito e admiração.

Contar a história de Seu Ditinho tem um significado especial. É falar de alguém por quem temos uma profunda admiração e, ao mesmo tempo, registrar um pouco da trajetória de uma pessoa que faz parte da história cultural de São Bento do Sapucaí.

E essa história continua no Quilombo, entre Seu Ditinho, seus filhos e cada novo pedaço de madeira que ganha forma em suas mãos.

📸 capa: Vinicius Rafael Gs